E ela perde

Horas

Parada em frente ao armário

Pensando

Confabulando

Que roupa vestir

Qual sapato calçar.

Ensimesmada

Não sabe

Que já está pronta

Para ser feliz.

Talvez por não querer sentir
Me furtei a escrever
Mesmo que fosse fingir
E escrevesse sobre quem não sou
sobre o que não vivi, não vivo, não senti, não sinto
Teria que forçosamente adentrar nos lugares obscuros da alma,
nas grutas, nas memórias amareladas, nas sensações engavetadas,
nos momentos passados que estão nas prateleiras do alto
empoeirados e gastos.
Encontraria de alguns amores apenas as cinzas que restaram atravancando ainda meus espaços
e que impedem que novidades se instalem e se espalhem nos sentimentos adormecidos.
Ainda que fosse fingir um personagem inserido em um enredo e cenário de que não faço parte,
seria difícil não tomar parte
seria impossível não ter sentido
seria improvável não ter vivido.
A vida imita a arte
e a arte não limita a vida.



É bonita a poesia
Não pelas letras que reúne
Em palavras que em sonoridade se harmonizam
É bonita a poesia
Porque e quando retumba aguda
Em quem as sente como suas pela semelhança com sua vida

Deixo todos os caminhos

E todas as estradas

Para quem veio à vida a passeio.

 

Eu fico com os descaminhos

Eu fico com o tudo ou nada.

O segredo é saber fluir

sem temer o que há de vir

sem saber o que vai surgir

sem parar ou tentar fugir

 

 

Mesmo sem saber

o que há de vir

Não deixo de querer

Não deixo de insistir

Nesse maluco existir

 

Mesmo sem demover

todas as muralhas

Hei de conseguir

Vencer a batalha

pois sei persistir

 

 

O meu sangue

ferve nas veias

O meu peito

pulsa paixão

E para prosseguir

eu sempre encontro razão

Preciso urgente de um sapateiro pra consertar meus sapatos. Preciso urgente de um livro que instigue. Preciso de uma carta distante de alguém que há anos não vejo. Preciso seguir pra Lisboa, ver o Tejo. Preciso pregar no mural a carta com um percevejo. Preciso de ensejo pra aparecer de novo por tuas bandas. Preciso de uma frase de efeito pra minha chegada. Preciso de um subterfúgio pra não entregar o jogo de cara. Preciso de alguma piada pra quebrar o gelo. Preciso de uma história mal-contada. Preciso de uma carta marcada. Preciso de um blefe. Preciso coragem pra voltar para estrada. Preciso de um bom mate amargo. Preciso de um trago. Preciso de um norte. Preciso dar o bote. Preciso sumir e não ser encontrada. Preciso matar a charada. Preciso da moral dessa história. Preciso de um canto pra dormir essa noite. Preciso da noite. Preciso do escuro. Preciso entrar em apuros. Preciso perigo. Preciso de abrigo. Preciso de ajuda. Preciso sonhar com uma orquestra. Preciso aprender a ser ambidestra. Preciso de astúcia em ambas as mãos pra escrever essa história. Preciso pedir desculpas. Preciso ser perdoada. Preciso te desculpar. Preciso te apunhalar com um golpe preciso de faca. Dessa vez seja homem e não fique de costas.

Navega

Na viga

Na veia

Na vida

Assopra essa vela

Assopra a ferida

Te joga na brisa

E ganha o mar.